Quinta-feira, 19 de Janeiro 2006 (15h)
Enquanto me dirijo ao comboio uma data de apontamentos tomam conta do meu pensamento. Parece que agora sim...é de vez!
Dou um passinho de cada vez. Com a capa no ombro esquerdo, com a gravata bem junto ao pescoço. Tenho a preocupação de baixar a saia que facilmente sobe com o meu ritmo apressado, arrastada pela meias grossas que envolvem as minhas pernas.
Está especialmente frio hoje, apesar do sol querer espreitar. As nuvens estão carregadas, deve ser daquilo que ainda não me foi comunicado...um prenúncio mau.
Vou chegar atrasada como sempre. Mas tradição que é tradição, não pode jamais fugir à regra, nem tão pouco num dia tão importante quanto este.
Em cinco anos, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes a que cheguei a tempo... nunca portanto! Corria quase sempre apressada as escadas da estação, rezando para não me espalhar ao comprido...afinal são muitos degraus. Depois rezava para que a máquina não encravasse com o meu passe e pelo caminho conferia umas tantas vezes se o levava comigo para não ter de voltar para trás.
Como quase sempre perdia o comboio, tinha mais do que tempo suficiente para matar o vicio no célebre quiosque de café, às vezes até podia comer qualquer coisa...(engraçado neste momento não me lembro de nada do que escolhia).
Desta vez quando cheguei ouvi um comboio a partir, mas era em direcção a Setúbal. Podia beber o café com calma. Pela primeira vez tirei o meu ar de trombuda e sorri para pedir o café. O empregado serviu-me, sorriu-me e sentiu-se à vontade de meter conversa sem ouvir uma resposta torta da minha parte.
"Finalista?"
"Não ...é mesmo "diplomada" !"
Dito isto sorri. Um orgulho súbito encheu-me a face...tive pela primeira vez a percepção do que o momento significava no seu todo. Bebi de um trago o café e subi as escadas rolantes. Já não fazia este trajecto há muito tempo, talvez desde Janeiro de 2006. A última vez que o tinha feito, estava demasiado absorvida pela alegria de se tratar do último dia e por isso não tinha dado a devida importância ao momento. Pelo meio ficou a viagem de finalistas, o baile, o estágio...e nunca mais tinha feito o mesmo caminho.
Apercebi-me que tinha (e continuo a ter) saudades do caminho que percorri durante 5 anos. As pessoas olhavam para mim como se eu não passasse de uma estranha, uma "ave rara". Afinal o traje escuro denunciava-me...eram as minhas últimas horas no estatuto de estudante. Agora é que era mesmo de vez, e não havia volta a dar.
O comboio chegou e subi como sempre para o primeiro andar da carruagem.
Tantas e tantas vezes que não conseguia sequer subir as escadas, porque estavam cheias de gente. As manhãs eram particularmente problemáticas.Já não bastava o meu atraso, ainda tinha de ir de pé a respirar o ar das outras pessoas, ficava a cheirar a elas, ficava condicionada às músicas que essas mesmas pessoas ouviam e, era certinho como o destino, no dia em que eu precisava de ir sozinha num daqueles lugares de quatro pessoas, quer fosse manhã ou tarde, surgia sempre o mesmo problema...parecia que nesse dia em particular, as pessoas tinham de se sentar ao meu lado, ou à frente desconcentrando-me na revisão de apontamentos para o teste que iria ter de seguida. Era sempre...sempre assim.
Nestes 5 anos tive companhias de comboios. Normalmente elas conquistam-se, porque as pessoas passam a conhecer-se de todos os dias irem no mesmo comboio, carruagem ...eu ganhei "a" companhia. Era da minha turma, tinha os mesmos horários, tinha as mesmas disciplinas e partilhavamos os mesmos interesses ...e transformou-se em uma das melhores amigas - Andreia. Afinal o que seria da faculdade sem estas coisas!
A carruagem entrou no túnel e depois deu-me a descobrir com uma claridade invulgar o Tejo, a cidade e as suas colinas - Lisboa. Como é linda a minha cidade.Levantei o rosto, contemplei a vista e recolhi num minuto sensações, rostos, frases, situações, alegrias, tristezas, desilusões...
Foram cinco anos cheios de tudo, compostos de mudança, cheios de conhecimentos, de pessoas com as quais me cruzei, amigos/as que fiz, professores com quem lidei.....
FOI MUITOOOOOOOO BOMMMMMMMMMMMMM!!!!!
O telemóvel tocou e a tua voz soou...o meu pensamento desmorou, agora passava eu para um segundo plano.
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