Há um tipo de mulher que anda por aí nas avenidas, vejo-a agora do sítio onde escrevo, que é assim mesmo: quase bonita. Está tão perto de ser bonita que nos confunde. A beleza tem muitas formas. Há uma beleza tirânica e autoconsciente que eu tento evitar. A mulher que sabe que é bonita é uma mulher que já chegou, é uma mulher engravatada que já faz parte do "sistema", que aderiu ao "centrão". Não lhe sobram dúvidas nem inquietações. Ora, eu acredito que o ser humano deve fugir da confiança excessiva para não se transformar num mísero deslumbrado. Deve desconfiar de si mesmo, do que é, do que quer ser. A mulher demasiado segura da sua beleza não possui esta hesitação, este entendimento paradoxal com o mundo. Toda a mulher conscientemente, arrogantemente bonita não precisa do mundo para nada. Basta-se a si própria, enquanto passeia nas avenidas recebendo falsos juramentos e falsas venerações.
Eu só acredito, por isso, na mulher quase bonita. Acredito que o nosso consolo só pode vir da mulher que está quase, que vai um dia estar mas ainda não sabe, que vive na secreta ilusão de vir a ser. A mulher quase bonita merece a nossa crescente, indisputável admiração.
Hoje eu tinha de escrever isto.
by Pedro Lomba
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